Pearl Jam Twenty - 2001. Escrito e Dirigido por Cameron Crowe. Direção de Fotografia de Nicola Marsh. Produzido por Cameron Crowe, Kelly Curtis, Andy Fischer, Barbara Mcdonough e Morgan Neville. Tremolo Productions e Vinyl Films / USA.
Cameron Crowe ainda não era um cineasta reconhecido quando se mudou para Seattle no final dos anos 80, naquela ocasião sua principal atividade ainda era a de colunista musical. Ele se tornara nos anos 70 o mais jovem colaborador da revista Rolling Stone e deste então ele trilhara um bem sucedida carreira no jornalismo cultural. Crowe foi para o noroeste dos Estados Unidos atraído pela prolífera cena musical da cidade natal de Jimi Hendrix, que começava a chamar a atenção da mídia e da indústria cultural. Neste período, ele teve contato com aquilo que seria o embrião do hype que a crítica especializada apelidaria de Grunge. Ele estava no lugar certo e na hora certa... em Seattle ele faria o seu primeiro filme, Digam o que Quiserem (1989), e a ebulição cultural da cidade serviria de pano de fundo para o segundo, Singles - Vida de Solteiro (1992).
O fato de que Crowe conheceu de perto a cena musical da cidade, antes da explosão do Grunge, faz dele o cineasta mais indicado para contar, através de um documentário, a história de uma das bandas mais importantes surgidas naquele período, o Pearl Jam. A relação entre o cineasta e a banda sempre foi bastante amistosa, membros dela fizeram pontas em Singles, como integrantes da banda de um dos personagens centrais do filme e este mesmo personagem teve seu figurino montado basicamente com peças do guarda roupas de Jeff Ament, baixista do banda. A proximidade entre Cameron e os músicos contou muito para que Pearl Jam Twenty se tornasse um documentário quase passional, destituído de qualquer pretensão de ser imparcial ou de se ater a qualquer rigor jornalístico...
Eu diria que Pearl Jam Twenty é um filme de um fã para outros fãs da banda e justamente por isso a parcialidade dele não chega a ser um demérito. Para os fãs não há nenhum problema em ser parcial, desde que desta parcialidade resulte uma abordagem positiva. O documentário não se prende tanto à datas, mudanças de formação e coisas do tipo, ele não funciona tão bem como biografia e este é na minha opinião um de seus grandes acertos. O Pearl Jam sempre se manteve relativamente à margem da indústria fonográfica (ainda que seu primeiro disco permanecendo um tempo enorme nas paradas de sucesso), raramente seus integrantes concediam entrevistas e eles se tornaram conhecidos mais pelas suas atitudes do que por aquilo que diziam diante de câmeras e gravadores. Crowe no entanto quebra esta barreira difícil de ser transposta e nos apresenta para uma banda formada, não por rock-stars, mas por pessoas comuns, que trazem consigo seus próprios dramas e experiências da vida...
Outro ponto positivo do filme é que ele não comete o equívoco (muitas vezes cometido) de mostrar o Grunge como um movimento, ou como um sub-estilo musical. Crowe não despreza a influência , direta ou indireta, que as outras bandas de Seattle exerceram sobre o Pearl Jam, no entanto ele aponta a efervescência cultural da cidade apenas como uma cena musical, que é tão somente o que ela foi...
Pearl Jam Twenty começa falando da importância de uma das bandas de maior sucesso no underground local antes do hype, o Mother Love Bone, que terminou após a morte prematura de seu vocalista, Andrew Wood, por overdose. O fim desta banda causaria um forte impacto na cena musical da cidade e uma onda de melancolia tomaria os integrantes remanescentes do grupo, dentre eles Jeff Ament e Stone Gossard, futuros integrantes do Pearl Jam. A experiência de ver o amigo agonizando funcionou como um rito de passagem para eles e influenciou diretamente no clima das músicas que eles compuseram naquele período.
Eddie Vedder, que não viveu esta experiência, chegou a Seattle trazendo seus próprios dramas em sua bagagem, ele era fruto de um lar despedaçado, o homem que o criara não era seu pai biológico e ele só descobriu isso quando seu progenitor já estava morto. Cameron Crowe destaca estes dois eventos no filme, a morte de Andrew Wood e o drama familiar de Vedder, pois deles sairiam a inspiração para algumas das músicas do primeiro disco da banda, que se tornariam verdadeiros clássicos. Ele dá continuidade a este tipo de abordagem que aproxima a vivência de cada um dos integrantes da obra produzida por eles.
Crowe ainda dá enfase no relativo distanciamento que a banda manteve do circuíto comercial e da grande mídia e a alguns eventos que marcaram sua trajetória, como a briga com a Ticketmaster pela redução dos preços dos ingressos de seus shows e a tragédia acontecida em 2000 em uma apresentação no Festival de Roskilde na Dinamarca.
Os depoimentos presentes em Pearl Jam Twenty são em sua maioria de integrantes da banda e de pessoas próximas a eles, o que reforça a postura parcial e passional do filme, todavia Crowe não deixa de mencionar os maus momentos pelos quais a banda passou e crises internas que ela enfrentou, o que funciona como um interessante contraponto à abordagem predominante.
O documentário está repleto de imagens raras (o que é característico do gênero), várias delas do início da banda, feitas pelo próprio Cameron enquanto ele ainda atuava como jornalista em Seattle, o que é sem dúvidas é um deleite para qualquer fã da banda, principalmente para aqueles que não viveram o início dos anos 90 e a explosão do Rock Alternativo de Seattle. Recomendo para os 'camisa de flanela' e para todos os demais que apreciem e valorizem a boa música!
Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Compramos Um Zoológico (2011) e Singles - Vida de Solteiro (1992), também dirigidos por Cameron Crowe!
A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.






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